O que Sebald sabia sobre imagens que o texto não deveria explicar; e porque isso importa para marcas autorais

Em 1990, o escritor alemão W.G. Sebald (1944 - 2001) publicou Vertigem, o primeiro de uma série de livros que misturavam romance, memória e ensaio de um jeito que a crítica literária ainda não sabia bem como nomear. Em meio ao texto, sem aviso, sem legenda, apareciam fotografias: um bilhete de trem, uma fachada de prédio, um rosto desfocado numa multidão. Nenhuma delas era explicada, nenhuma dizia ao leitor o que deveria significar, criando no leitor um efeito de dúvida.

O leitor, acostumado a que imagem confirme texto, a foto que prova a história, a legenda que fecha a interpretação etc., se via diante de algo diferente: uma fotografia que talvez fosse prova, talvez fosse invenção, talvez pertencesse a outra história inteiramente. Sebald nunca esclarecia e era exatamente essa recusa em esclarecer que fazia o leitor prestar atenção de um jeito que nenhuma imagem explicada jamais provocaria.
Porque uma imagem que confirma o texto é decorativa.
Uma imagem que contesta o texto é memória.
Sebald construiu toda uma obra sobre esse desconforto. Seus narradores caminham por paisagens, cidades bombardeadas, litorais ingleses, cemitérios europeus e o que eles descrevem nunca bate exatamente com o que a fotografia ao lado mostra. A discrepância, em seu caso não era falha, mas um método. Porque a memória verdadeira, argumentava Sebald sem nunca dizer isso diretamente, não é fiel. Ela é reconstruída, incerta, cheia de lacunas que a mente preenche com o que consegue. E uma paisagem fotografada com legenda explicativa mente sobre isso, finge uma certeza que a experiência real nunca teve.
Há algo nisso que expõe um hábito quase automático de marcas autorais.
A foto do ateliê com a legenda que descreve o processo.
A imagem da peça com o texto que explica a técnica.
A paisagem de onde vem a matéria-prima, sempre acompanhada da frase que fecha qualquer possibilidade de interpretação própria.
Cada elemento visual chega ao público já resolvido, já mastigado, já sem nenhuma pergunta em aberto. A questão não é necessariamente se a informação está certa ou errada, mas a eliminação do único espaço onde a marca realmente se constrói: o espaço entre o que é mostrado e o que o espectador precisa completar sozinho.
Uma marca autoral que explica toda imagem trata seu público como alguém que precisa ser guiado até a conclusão certa. Uma marca que deixa a imagem em aberto que apresenta a paisagem, o objeto, o gesto de fazer, sem amarrar tudo numa frase que resolve o sentido, trata seu público como alguém capaz de construir significado. E é justamente esse trabalho de construção, feito pelo espectador e não entregue pronto, que gera a sensação de proximidade que nenhuma legenda explicativa consegue produzir.
Sebald sabia que a fotografia sem legenda não é ausência de informação, mas antes, um convite à dúvida produtiva; o tipo de dúvida que faz o leitor voltar à página, olhar de novo, tentar entender por conta própria o que a imagem e o texto, juntos, recusam-se a resolver.
Marcas que têm processo real, matéria-prima real, paisagem real por trás do que produzem carregam esse mesmo potencial e grande parte o desperdiça preenchendo cada silêncio com uma frase que fecha o que deveria ficar aberto.
A pergunta que Sebald deixou para a literatura talvez seja a mesma que toda marca autoral precisa se fazer diante da própria imagem: o que estou mostrando e o que estou, sem perceber, impedindo que o outro descubra sozinho?
Helton Messini é Historiador e Design Gráfico. Doutor em Filosofia, Estética e Educação. Entusiasta de cinema, literatura e viagens.




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