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Madeira, rede e repouso: o gesto autoral de Sergio Rodrigues

Foto do escritor: Helton Messini
Helton Messini
22 de ago.
3 min de leitura

Rio de Janeiro, 1957. Sergio Rodrigues recebe o desafio de desenhar uma poltrona para representar o Brasil numa exposição internacional de design. O caminho óbvio seria seguir a gramática que dominava o design de móveis naquele momento: linhas rígidas, estrutura vertical, a lógica europeia de conforto como postura ereta e contida. Rodrigues fez o oposto. Olhou para a rede de dormir, para a cadeira de lona de varanda, para o jeito de sentar que já existia nas casas brasileiras há gerações e desenhou a partir daí.



Estrutura de jacarandá maciço, sem um parafuso sequer, encaixada por pressão; couro grosso que cede sob o peso do corpo, formando dobras que mudam a cada pessoa que senta. Nasce a poltrona Mole: não era uma poltrona que impunha postura, era uma poltrona que se rendia a quem a usava.

Na exposição, um crítico dinamarquês teria comentado, ao se sentar pela primeira vez: "isso não é uma cadeira, é uma rede disfarçada." A frase, pensada como provocação, era exatamente o elogio que Rodrigues buscava. Ele não queria fazer uma cadeira brasileira que parecesse europeia com detalhes tropicais. Queria redesenhar a própria definição de conforto a partir de um repertório que já existia, informal, quase invisível de tão cotidiano e elevá-lo à categoria de design sem traduzi-lo para agradar um público estrangeiro.

Existe uma diferença importante entre decorar com identidade nacional e desenhar a partir dela. A primeira aplica símbolos sobre uma estrutura já dada, um padrão geométrico "brasileiro" sobre uma cadeira de linha europeia, por exemplo. A segunda reconstrói a lógica interna do objeto a partir de uma experiência real, vivida, anterior a qualquer intenção de mercado. A Mole pertence à segunda categoria. Ela não cita a rede. Ela pensa como a rede.

Essa distinção separa também, com uma precisão incômoda, marcas autorais que comunicam identidade cultural de marcas que apenas a ilustram.

Quem produz objetos artesanais, cerâmica, joia, mobiliário, peça de moda, frequentemente enfrenta a mesma bifurcação que Rodrigues enfrentou em 1957: seguir a gramática já validada pelo mercado (as formas, os acabamentos, os gestos visuais que já "funcionam" porque outras marcas de sucesso os usam) ou partir de uma experiência genuinamente própria, mesmo que ela não tenha, ainda, um vocabulário de mercado pronto para nomeá-la. O primeiro caminho é mais seguro e produz peças competentes, reconhecíveis, comparáveis. O segundo, apesar de mais arriscado, é o único capaz de gerar algo que não existia antes.

A tentação, quando se quer comunicar "brasilidade" ou "raiz" ou "artesania", costuma ser decorativa: aplicar um símbolo, uma cor, uma referência visível de origem sobre uma estrutura de produto que, na essência, poderia ser de qualquer lugar. Rodrigues mostra o caminho inverso e mais desafiador. Não decorar a peça com identidade. Deixar que a identidade determine a própria estrutura da peça, mesmo que isso signifique abandonar a forma que o mercado já reconhece como "correta".

Rodrigues chamou esse princípio, mais tarde, de "design antropofágico", antes mesmo de o termo antropofagia ser recuperado por outras gerações de criadores brasileiros como conceito estético. Ele não via contradição entre pesquisar tradições populares e produzir design de vanguarda internacional. Via processo: devorar o repertório local, digeri-lo com técnica contemporânea, e devolver algo que carregasse as duas coisas sem hierarquia entre elas.

A poltrona Mole está hoje no MoMA (Museum of Modern Art - New York), mas não foi desenhada para caber lá. Foi desenhada para replicar, em madeira e couro, o jeito de descansar de um corpo brasileiro em um final de tarde qualquer e o reconhecimento internacional veio como consequência, não como objetivo.

Fica a pergunta que Rodrigues resolveu com uma poltrona, e que toda marca autoral enfrenta, cedo ou tarde: a forma do que você faz nasce de uma experiência real e sua, ou nasce de uma gramática de mercado que você aprendeu a repetir porque parece funcionar?


Helton Messini é Historiador e Design Gráfico. Doutor em Filosofia, Estética e Educação. Entusiasta de cinema, literatura e viagens. 

 
 
 

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